Eduard Henry

Eduard Henry

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

VIAGEM AO DESERTO

Viagem ao deserto

Eu recebi a notícia no meio do caminho, durante um dia de trabalho. Naquele momento, com apenas algumas palavras e entonações já percebi que estaria rumo a um grande deserto. 


Quando penso em deserto geralmente coisas ruins me vêem à mente. Local seco, quente, tem criaturas esquisitas, adaptadas a esse tipo de vida. Porém, devo concordar que existe algo majestoso e imponente no deserto. É um local que nos faz sentir pequenos diante de sua amplidão. Ao mesmo tempo, sua grandeza transmite serenidade, calma e perseverança.

De primeira parece que o deserto é um local de morte, tristeza e dificuldades. Não se vêem muitas plantas, os poucos animais que vagueiam vivem se escondendo, parece que a vida se recusa permanecer ali. No entanto, se prestarmos atenção, o deserto abriga tantas e tão variadas formas de vida que certamente, muitos não trocam este lugar por qualquer outro.

Sempre fugi do deserto. Não sei se a natureza humana, ou apenas a minha, caminha para fugir dessa experiência. Mas atentando a uma série de fatores, percebo que o deserto se faz útil. Ele foi e ainda é importante para a formação do caráter, da conduta, da vida.

O tempo passa e a dor e tristeza de estar atravessando esse deserto parece infindável. Cruzo o deserto como um escravo que segue sem rumo, a um destino que ele não traçou – e jamais traçaria. Cruzo o deserto como derrotado, cruzo o deserto com uma tristeza indescritível, tristeza a qual jamais tive contato semelhante. Ela me acompanha, dia a dia, lado a lado. Mesmo quando não percebo, mesmo quando não quero vê-la, mesmo quando os outros a escondem de mim, eu sei que ela está ali.

Meus olhos se enchem de água a cada instante que tenho de vagar por esse deserto. É o pranto do Egito que não me abandona. As vozes do deserto são vazias, são lúgubres, são ásperas. O dia não acaba, a noite nos ameaça, a vida está em falta.

Às vezes sinto que essa é a última viagem ao deserto, mas não estou certo disso, aliás, quando estamos nele, não pensamos nos desertos de antes, nem naqueles que virão, pensamos apenas naquilo que está ocorrendo, porque o deserto é imenso, não vemos o início, nem o fim.

Sigo por este deserto como a quem segue um cortejo, o cortejo fúnebre de patriarca beduíno. Homens e mulheres estão ali, pranteando seu querido líder. Seu exemplo que não está mais ali, a fortaleza que se foi, a rocha que esmoreceu e ruiu.

Sigo na esperança de um dia sair, mas também espero aprender com esse deserto. Quero sair mais forte, quero sair mais preparado, quero sair amadurecido dessa experiência que o dia tenta apagar e noite o traz, num eterno retorno, com apenas uma esperança que há... sutil e intimamente.

(Escrevo esse texto pensando primeiramente no livro de Gênesis, capítulos 48, 49 e 50, que conta a história do velório de Jacó, baseado também no livro do psicólogo Marcelo Aguiar – Nos desertos da vida, também nas palavras do meu pastor, Valdo Fonseca e principalmente na minha experiência em um dos maiores desertos de minha vida.)

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