Eduard Henry

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domingo, 23 de agosto de 2009

GUERRAS E SALSICHAS

Este texto é do meu amigo Paulo Purim e está orginalmente postado em seu sítio Bacia das Almas, vale a pena fuçar o conteúdo. Tomei apenas a liberdade de trocar o título por uma questão de... sei lá, achei mais interessante!

A importação da guerra
Por PAULO BRABO


Aqui no Brasil, como é notório, devemos nosso idioma e grande parte da nossa cultura ao mundo de fala latina do Império Romano. Somos filhos dos césares, dos papas e dos gladiadores, e falamos quase literalmente a sua língua.

Mas as palavras são marinheiros promíscuos que deixam às vezes mais de um filho em cada porto. Nos seus embates freqüentes com o mundo latino, os loiros germanos (que ocupavam a Europa central e provocavam constantemente as fronteiras do Império Romano) desovaram entre nossos antepassados uma palavra que alastrou-se como vírus, acabou desbancando o termo latino original e atravessou os séculos para acomodar-se impunemente nas nossas manchetes. A palavra-vírus era werra – que acabou gerando, por linhas tortas, tanto o nosso “guerra” quanto o inglês “war”.

No quinto ou sexto século depois de Cristo o sonoro werra, da raiz indo-européia para “confusão, mistura, discórdia, revolta”, já havia derrubado no latim vulgar o termo latino para guerra – bellum, cuja influência entre nós limita-se a correlatos eruditos como bélico, belicoso e belicismo.

Ignoramos os verdadeiros motivos que levaram os latinos a abandonarem o nativo bellum em favor do importado werra. Alguns supõem que tenha sido a competição desleal de outro termo latino de som semelhante mas significado muito diverso: bellus, “bonito,” que sobreviveu no nosso “belo”. Na disputa entre as marcas, bellus se perpetuou e bellum conformou-se em ressuscitar sob outro nome de fantasia – para que não caíssemos talvez na fria de imaginar que há algo de belo a respeito de bellum/guerra. Werra possuía a vantagem adicional, penso eu, de ter (ao contrário do pedante bellum) vocação para grito de guerra; não é difícil imaginar um exército de germanos despencando-se na direção da câmera com macetes nas mãos e a palavra nos lábios.

Em português arcaico dizia-se, significativamente, güerra, pronúncia que sobrevive no italiano guerra. O inglês entrou na ciranda a partir do século XII, tendo sindo contaminado pelo francês arcaico werre, que se materializaria em war para os ingleses e guerre para os franceses. Curiosamente, a raiz sobrevive em alemão apenas em termos como wirr, “turbulento, labiríntico, confuso” e wurst, “salsicha” – pela denotação de “mistura”.

O que me faz lembrar que as guerras são como salsichas. Para você engolir é melhor não saber como são feitas.

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