Eduard Henry

Eduard Henry

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A invenção da paixão


Trecho de "Tratado do Amor Cortês", de André Capelão; século XII.
Fácil é ver que o amor é uma paixão. Isso porque angústia nenhuma é maior que a provocada por ele, pois o enamorado está sempre no temor de que sua paixão não atinja o resultado desejado e de que seus esforços sejam baldados. Teme também o falatório da multidão e tudo o que, de uma maneira ou de outra, possa prejudicar seu amor, pois é bem frequente que uma perturbação mínima impeça de levar a bom termo o que se ia consumar. Se o enamorado é pobre, teme que a amada vilipendie sua penúria; se é feio, teme que ela despreze seu físico ingrato ou que procure o amor de alguém mais belo; se é rico, teme que sua passada parcimônia acabe por reverter em prejuízo; e, para dizer a verdade, não há ninguém que possa contar em minúcias os temores do enamorado. Essa espécie de amor é, pois, uma paixão não-recíproca que se pode chamar de "amor singular". Mas, uma vez correspondido o amor, as angústias que surgem não são menores; porque cada um dos dois amantes teme perder, pela ação de um terceiro, aquilo que conquistou com tanto esforço.
(O clérigo André, capelão da condessa Maria de Champagne, registrou e comentou numa obra elaborada em latim provavelmente entre 1181 e 1186. Texto curioso, escrito por um homem da Igreja que não ficou, porém, imune ao amor humano e confessa mesmo ter sido "tocado pelo amor a uma mulher notável".)

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